Kant e sua lei moral: muita coisa para se rever
Para Immanuel Kant, todos nós, seres humanos, somos dotados de uma razão pura. E é exatamente esse nosso conhecimento implícito de uma razão que faz com que entendamos uma lei moral, que rege os princípios do que é melhor para todos. Esse pensamento quebrou alguns dogmas de alguns filósofos contemporâneos de Kant, que diziam ser “a razão algo divino” – que vinha mesmo de DEUS -, ou ainda, “a razão era movida para uma ação de bem-estar geral”.
Kant foi inúmeras vezes criticado, a meu ver, sem muito fundamento, quando cria a sua lei moral. Muitas pessoas, até hoje, criticam-no dizendo que ele estabelece a lei moral como detentora de regras fixas. No meu entender, sua lei moral tem o intuito de revelar uma capacidade humana de viver em sociedade. Sua obra metafísica dos costumes vem a dissipar esse pensamento extremamente formal, pois na obra, Kant relata a moralidade como um elemento que busca uma finalidade objetiva. Pensando agora em Wittgenstein, poderíamos dizer que se tratam de jogos de linguagem em que o homem se insere para, através das regras estabelecidas socialmente, acionar seu conhecimento objetivo da moralidade e, assim, conseguir atingir o seu intento.
Não quero ser o advogado do diabo aqui e tentar “tirar o homem da forca”, mas uma leitura mais cuidadosa poderia apontar alguns reajustes na fala kantiana. Claro que o filósofo do conhecimento sempre parte de uma base universalista, e isso, sem dúvida nenhuma, compromete demais seu trabalho.
Como já dissemos em posts anteriores, pensar em elementos universais, ou verdades puras, sempre vai trazer refutações. As realidades que o próprio Kant considera como sendo a priori – conhecimento independente da experiência – e a posteriori – verdades cognoscíveis no contato da experiência -, poderiam ser, como costuma dizer Duque, o pulo do gato. Mas, na hora em que o gato saltou, ele esqueceu do pára-quedas…
O a posteriori kantiano fala de um conhecimento que advém da experiência, mas que só é compreendido através da razão pura. E, pensar em uma razão pura é admitir, mais uma vez, os universais, pois se a razão pura atua a priori e a posteriori, a verdade sempre será uma só. Mas, e as culturas? E as sociedades? Se a razão pura atua norteando a lei moral, todas as nações deveriam estabelecer conceitos iguais. Mas sabemos que não é assim que a banda toca.
Ainda acho, mesmo com todos esses problemas apontados na leitura de Kant, que ele é bibliografia indispensável para qualquer um. O pensamento da razão pura e de uma lei moral não é de todo “viagem”. Somos dotados, também, de uma biologia, de uma estrutura corpórea, de elementos em comuns que definem nossa raça como sendo a humana. E isso, sem dúvida nenhuma, traz particularidades para as sociedades, no momento de construção de sentido entre nações. Eis o momento de pensar em uma razão sensível – mescla de racionalidade e subjetividade na construção do conhecimento.
Pegando um gancho em uma citação dele:
Quanto à felicidade, cuja promoção como um fim constitui meu dever, ela tem de ser a felicidade de outras pessoas, cujo fim (lícito) torno o meu próprio. Aquilo que elas podem contar como pertencendo à felicidade delas compete a elas mesmas decidir; enquanto compete a mim recusar algumas coisas que elas pensam que irão fazê-las felizes, se eu discordo delas a respeito disso, desde que não sejam coisas que, como próprias, elas tenham o direito de exigir de mim (KANT, 1797, P. 388).
Kant mostra nitidamente uma compreensão de felicidade que difere de pessoa para pessoa. Já nessa fala, podemos perceber a maleabilidade kantiana na compreensão da lei moral que advém da razão pura, pois as concepções do que é bem-estar para mim nem sempre significará bem-estar para você. É isso.
Para uma leitura mais apurada ler KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes: 1785; KANT, I. Metafísica dos costumes: 1797.
~ por Yamashita Ricardo em 07/06/2009.
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Tags: filosofia, razão, representação social, silogismo, subjetividade

Bom texto e concordo em parte. Também acredito que, apesar do “formalismo” ao qual muitos intérpretes fazem referência, há uma tentativa genuína de se salvar a liberdade. Melhor dizendo, quando Kant alega que o sujeito deve ser “descaracterizado” no sentido de se ter apenas um acesso empírico, bem como a moral baseada no “conhecimento” deve ser deixada de lado – ou seja, de novo, caracterizando -, ele quer, na verdade, com que nós não cheguemos aos extremos e apenas erremos em relação a isso. (Tenho essa idéia a partir de determinados estados que alguns povos já atingiram baseando-se nessa noção de modelos de sujeitos e relações). Ou seja, perde-se por um lado, mas Kant, justamente pelo fato de ser um sujeito moral e desenhar o seu sistema usando o pilar legitimado pela prática, recorre a isso, à busca por uma liberdade “geral”.
correção: onde eu falei “de novo, caracterizando” leia-se “de novo descaracterizando”.
Gostei de seu post, Angustiada. Com certeza, Kant diz muito mais do que nossa leitura supõe. A incompreensão de sua obra é inúemras vezes atrelada à sua obra de 1785. O problema maior é Kant alegar a experiência a posteriori como cognoscível através da razão pura; isso gera murmúrios nos meios acadêmicos. É como se admitíssemos que a experiência é compreendida através da razão pura – a mesma da lei moral – e através disso, encontrássemos um ideal único. Mas, as práticas sociais estão imbricadas com as culturas particulares e isso leva o pensamento de lei moral a uma construção de sentido sociocultural e sabemos o quanto cada cultura responde diferentemente a isso, inclusive, com conceitos de liberdade muito distintos.
Participe sempre, minha colega!
Então. Como eu disse, perdemos por um lado com Kant, por descaracterizarmos os seres, e isso é meio que contra-intuitivo. Imaginemos isso em relação ao exemplo de que não se deve mentir, mesmo que seja para salvar um amigo, por ex.
Isso é o “peso” do universalismo em Kant, da sua tentativa de salvaguardar a moral a partir de leis.
Mas, na verdade, ganha-se em outro sentido, pois nas nossas relações ele não “entra” tão forte em sua questão, nas culturas, na sociedade como um todo no sentido de buscarmos algo “além”, um Deus, a idéia de uma cosmologia, da psicologia, etc. Ou seja, ele fala de limites do sujeito e que toda tentativa de “fora” deve adaptar-se a esses limites – limites da nossa consciência, da nossa mente, alguns podem dizer hoje. E por que ele faz isso? Para não serem colocados dentro desse sujeito elementos que só tendem a estabelecer estados onde a “liberdade” individual é violada. Perde-se por afirmar que a há um limite para a substância, mas é por um bom motivo, o qual ele avisa desde o começo da crítica razão pura, quando ele fala que quer tirar os erros instituídos pelas escolas (isto é, naquele tempo, a metafísica, que já dizia o que era certo ou não em relação ao projeto “humano”), mas não quer tirar o sentido do coração dos homens!(isto é, em relação às tentativas de ir além, de buscar o sentido em algo que seja maior que a finitude, por ex., na religião, na arte, etc.)
Outra coisa que queria comentar: essa felicidade a qual ele se refere é uma possibilidade de um indivíduo que segue as leis, as regras, mas de maneira nenhuma ele afirma que só em segui-las, o indivíduo automaticamente já adquire – como em uma promoção – a felicidade. Ele só afirma que se há “felicidade”, esta seria adquirida a partir do momento em que se adquire uma noção de “motivos” que levam a merecê-la. De novo aqui, o universal não fere e não ultrapassa o individual! Como vemos no seguinte ponto: “aquilo que elas podem contar como pertencendo à felicidade delas compete a elas mesmas decidir”.
Muito bom encontrar alguém que também tenha uma visão mais ou menos parecida com a minha em relação a Kant.
Bela leitura de Kant! Apareça sempre!