A ciência do saber: fazer humanas ou fazer exatas?

capa Esse polêmico assunto do título, obviamente, requer muito mais do que um simples post de discussão. Como já estamos há algum tempo publicando, achei coerente trazer à baila esse assunto sobre a ciência. É claro que a postura adotada por cada um de nós vai ao encontro do modo como vemos a ciência. Mas, para quem, como eu, se encontra envolto com o dilema da “ciência pura”, por pertencer a área das ciências humanas, não é fácil delimitar até onde e o que é, de fato, ciência.

Acho que para alguns – ou até mesmo, muitos – esse assunto seja bem esclarecido. Mas, vale a pena deixar claro nossa perspectiva “humanitária” da episteme – ciência propriamente dita. Dentro das exatas temos claramente o resultado adquirido através do estudo empírico, que aponta um resultado final e conclusivo, ou seja, chega-se a uma resposta universal através da pesquisa. Na engenharia, por exemplo, os cálculos matemáticos são reveladores de como construir arquitetonicamente algo. Baseados nas equações temos a diametria exata para a realização do trabalho. Nas ciências humanas é impossível essa mesma postura, afinal, estamos lidando com sujeitos que carregam possibilidades e conceitos distintos. Como então, delimitar a ciência, nesse caso?

Trazendo a exemplificação para os estudos da linguagem, tivemos, no século passado, uma difícil definição do que seria um estudo empírico da linguagem. A linguagem era entendida apenas como um estudo histórico-comparativo, ou seja, comparávamos como se fala e escreve atualmente com os tempos mais remotos, criando, inclusive, árvores genealógicas das línguas. Era um estudo através dos tempos.

Mas foi em meados de 1916, com a publicação do Cours de linguistique generale, de Ferdinand Saussure – obra póstuma –, que o estudo da linguagem começava a ganhar um novo status. O linguísta genebrino afirmou ser necessário a necessidade de um recorte naquele estudo histórico para que a língua seja entendida em si e por si mesma. Para tanto, foi criado uma “dicotomia” entre estudo sincrônico – a língua estudada em um mesmo momento – e estudo diacrônico – a língua estudada historicamente, como já vinha ocorrendo.

No estudo sincrônico, cabia aos linguistas, de um modo geral, comparar os elementos constituintes da língua – os léxicos, palavras constituintes das orações – entre si. A comparação era feita entre os fonemas, morfemas, léxicos, até se chegar nas palavras compostas em uma mesma oração e palavras fora da oração. Esse estudo da linguagem considera a língua como um elemento abstrato do qual o sujeito não influencia em nada, somente se serve da língua para se comunicar.

Opa, perceberam alguma semelhança com os estudos científicos das exatas? Lembram-se do post anterior de Descartes e a divisão entre razão e subjetividade? Pois é, nesse exato momento, a Linguística ganha o tão badalado status de ciência e fica definida como “a ciência dos estudos da linguagem”. Mas, como podemos imaginar, essa ciência em nenhum momento aborda questões sobre a linguagem e a sociedade, de um modo interacionista.

O que, de fato, é relevante quando descobrimos o que é substantivo e adjetivo, sendo que já nos servimos das palavras antes mesmo de sabermos as nomenclaturas? Como esse estudo me traz competência para falar e escrever nos mais diversos contextos sociais? Eis o ponto onde os estudos da linguagem entraram em xeque, anos mais tarde. Algumas teorias posteriores começaram a entender a necessidade de se contextualizar o que é dito para que se entendesse, de fato, quais intenções eram pronunciadas no ato da fala, para que se saísse de um estudo meramente focado na forma da língua.

Em suma, acredito ser de extrema importância um estudo pautado na linguagem humana e seus mais intrincados meios de compreensão e construção significativa. E, para essa missão estão escaladas as ciências humanas, seja ela antropologia, sociologia, linguística, literatura, história, psicologia, filosofia… Por isso, estamos nessa jornada instigante.

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~ por Ricardo Yama em 28/05/2009.

7 Respostas to “A ciência do saber: fazer humanas ou fazer exatas?”

  1. A pergunta “o que é ciência” até hoje causa algumas discussões. Gosto da definição que vem da própria origem da palvra: “ciência é tudo aquilo que pode ser submetido à experiências e comprovado empiricamente”. Esta definição engloba tudo que se considera ciência. Mas nem toda “ciência humana” ou “ciência exata” é propriamente ciência dentro desta definição.

    Eu não gosto muito da separação entre ciências exata, biológica e humana. Apesar de uma aparente separação estão juntas, descrevendo a ciência. Um exemplo é a fala e a mente humanas. Usam da neurologia e de métodos físicos para descrever a fala e entender melhor a comunicação dos animais (algo “humano”).

    Abraço,
    Búfalo

  2. Isso mesmo, Búfalo. Vejo que sua concepção de ciência começa a se aproximar da minha. Será mesmo que, como postei anteriormente, somos dividos entre corpo e mente, razão e emoção? Será que o estudo empírico é, de fato, diferente em seus mais intrincados modos de pesquisa? A impressão que tenho é que a concepção do que é ciência sofre, e já vem sofrendo de algum tempo, mudanças paradigmáticas. Estamos cada vez mais considerando que a pesquisa não pode ser dissociada de um sujeito pensante, criativo, que dialoga e aponta as construções de sentido possíveis de acordo com suas experiências. Acho perfeito você ter citado as neurociências, pois esse caminho “interdisciplinar”, me parece, é o mais acertado para a evolução ampla da ciência e, consequentemente, da humanidade. As ciências cognitivas estão nesse mesmo caminho, dialogando com linguística, neurociência, psicologia, educação, sociologia etc.

    Abraço e participe sempre!

  3. Ricardo, você disse:
    ” Dentro das exatas temos claramente o resultado adquirido através do estudo empírico, que aponta um resultado final e conclusivo, ou seja, chega-se a uma resposta universal através da pesquisa. Na engenharia, por exemplo, os cálculos matemáticos são reveladores de como construir arquitetonicamente algo. Baseados nas equações temos a diametria exata para a realização do trabalho. Nas ciências humanas é impossível essa mesma postura, afinal, estamos lidando com sujeitos que carregam possibilidades e conceitos distintos. Como então, delimitar a ciência, nesse caso?”

    Eu tenho algumas dúvida sobre esse parágrafo, acho que ele reflete alguns clichês que estamos acostumados a ouvir mas que não são verdadeiros.

    Primeiro, considero a Matemática uma ciencia (formal), mas ela não é empírica. E o empirismo enquanto filosofia da ciencia morreu faz tempo: as teorias científicas não emergem da observação empirica, mas sim o contrário: usa-se observações empíricas para testar ou constranger as teorias. Mas como nenhum conjunto empirico finito elimina todas as teorias, não é possivel chegar a verdades universais (mesmo na física), a menos é claro que estejamos falando de fatos muito simples tipo “a massa do eletron é m (com a incerteza dm)”.
    E isso é identico ao que acontece nas humanas: você tem teorias (ok, muitas fracamente constrangidas) e você tem fatos básicos (tipo “o léxico português tem mais de 2000 termos”).

    Outra coisa que fiquei “indignado” foi você chamar engenharia de ciencia! Engenharia é uma mistura de técnica e arte (assim como a culinaria e medicina), que usa conhecimentos científicos mas usa muitos conhecimentos não científicos, mas apenas técnicos, estéticos etc.

    A expressão “ciencias exatas” é realmente infeliz. A maior parte da física e da matemática, por exemplo, consideram que um entendimento qualitativo dos fenomenos (exemplo, na dinamica não linear e a física de transições de fase) é mais importante do que uma mensuração quantitativa. Entendimento é mais importante que previsão (especialmente porque a maior parte dos sistemas caóticos não permitem previsao!). E a matemática pura é muito (totalmente?) qualitativa.

    E finalmente, “Nas ciências humanas é impossível essa mesma postura, afinal, estamos lidando com sujeitos que carregam possibilidades e conceitos distintos.”. Bom, foi exatamente para isso que inventaram a Estatística, que tanto tem um aspecto qualitativo quanto quantitativo. A Estatística (que não foi inventado por físicos ou matemáticos, mas por pessoas ligadas a ciencias humanas – descrição do Estado) é justamente o estudo e caracterização da variabilidade.

    Eu sou físico mas nunca tive aula de estatística, quem tem disciplina de estatística na graduação são os psiólogos, os sociologos e os biologos, pois eles tem que estudar objetos com grande variabilidade…

    Finalmente, a observação (que voce não comentou mas é usual) de que muitas ciencias humanas são historicas e portanto não se enquadram na definicao usual de ciencia tambem tem seus problemas: a cosmologia, a paleogeologia, a paleontologia etc, são ciencias históricas: não fazem experimentos empiricos, apenas constrangem suas teorias a partir de “documentos historicos” que são seus dados observacionais correspondentes…

    Então, eu acho que a verdadeira divisão é entre cientistas teóricos/históricos e cientistas experimentais/observacionais

  4. Bbjenitez,

    De fato, sabemos que as ciências, tanto humanas quanto exatas, carregam termos clichês e ideológicos dos mais variados possíveis. Infelizmente, e aqui estou falando na “macroburocracia”, sabemos o quanto é dificil uma busca interdisciplinar entre as áreas, sejam elas exatas, humanas, biomédicas etc. Quando levantei as questões mais ideológicas -entenda ideológicas como aparato rotulante – sobre as áreas em específico, obviamente estou falando do que as fazem ser distintas nas instituições de ensino e pesquisa, principalmente. Confesso para ti que essa distinção entre as áreas não me agrada nem um pouco, até porque, como eu já havia comentado em outro post, acredito ser de extrema importância o conhecimento agregado, muito mais do que a segregação disciplinar. Concordo plenamente contigo quando diz que a matemática é uma ciência formal – Frege está ai para fazer coro a nossa ideia -, mas sabemos também como ela é adotada na “práxis”, pricipalmente quando relacionamo-la ao ensino. Quem tem essa mesma noção da matemática – formalista – são somente pessoas que se aprofundam. Já no estudo da variabilidade, no caso citado, é de fato um estudo de probabilidades. Mas devemos entender que ela está na ponta do iceberg e se não dialogada com outras teorias, somente ela, não dá conta do recado. E, para encerrar, quando “escalei” a engenharia como exemplo citado na área das exatas, em nenhum momento quis rotulá-la como tal. Mas, sabemos que para efeitos “macroburocráticos” ela está lá, exatamente nessa área. São exatamente esses questionamentos que penso trazer à lume em nossos posts, Bbjenitez! Fico muito feliz com sua contribuição! Abraço e participe sempre!

  5. [off topic] gente, estou tentando ler os posts, mas o tipo de letra embaralha minha visão. Tem algum jeito a dar para aumentar a legibilidade?

  6. Ale, verdade, parece pequena mesmo. O problema é que ela já é automática. Veja se consigue aumentar pelo navegador. Vá lá em cima em “exibir”, “tamanho do texto” e coloque a maior. Você pode, por favor, nos avisar se deu certo? Obrigada.

  7. obrigada, Isis! Deu certo, sim.

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