![AS-DIFICULDADES-TEORICAS-PRESENTES-NA-DUALIDADE-ENTRE-CORPO-E-MENTE[1]](http://oshumanos.files.wordpress.com/2009/11/as-dificuldades-teoricas-presentes-na-dualidade-entre-corpo-e-mente1.jpg?w=300&h=280)
Olá, colegas.
Estou disponibilizando o artigo na íntegra cujo título e introdução já foram publicados aqui no blog: Corpo e mente: uma linguagem unificada. Com isso, pretendo expôr a teoria da metáfora conceptual e a abordagem interacionista da cognição. Espero que gostem.
PREFÁCIO
Este trabalho, baseado nos pressupostos teóricos da Lingüística Sociocognitiva, tem como objetivo explicitar as relações entre corpo e mente que dizem respeito à linguagem do ser humano. Através da leitura de renomados autores que trabalham com essa abordagem teórica, procuro considerar alguns aspectos que possibilitam a comunicação verbal do ser humano, demonstrando o quanto fatores corporais e cognitivos estão relacionados com a produção e a compreensão da linguagem. A mente, por muito tempo, foi vista como algo desemparelhado do corpo. Seguindo essa visão, alguns modelos teóricos no interior da Lingüística defendem que a mente tem uma estrutura especifica, e inata, a partir da qual a linguagem seria desenvolvida. A gramática gerativa proposta por Chomsky talvez seja o modelo mais conhecido que segue esse pressuposto. Essa e muitas outras teorias, que abrangem campos como psicolingüística, neurolingüística, objetivismo, behaviorismo, etc., vão tratar de maneira bem própria a relação corpo e mente.
O objetivo principal aqui não é desmerecer as demais teorias existentes e já consagradas no campo da Lingüística, mas sim procurar explanar uma abordagem que vem ganhando espaço, desde meados da segunda metade do século XX, e se consolidando no interior dos estudos da linguagem: a Lingüística Sociocognitiva. O enfoque proposto por essa abordagem articula fatores cognitivos, culturais, sociais, contextuais, dentre outros, no estudo da linguagem. Meu intuito, obviamente, não é abordar o vasto campo da ciência cognitiva, mas de forma bem específica considerar o quanto a linguagem pode ser compreendida a partir desse enfoque.
Existe, e vale salientar, uma diferença marcante entre a perspectiva cognitivista clássica e a perspectiva sociocognitivista aqui considerada. A abordagem clássica vai desconsiderar os aspectos sociais da linguagem, por compreender que esses aspectos, embora relacionados à linguagem, não interferem na teoria de uma forma geral, como veremos a seguir.
Em suma, este trabalho tem como base conceitos e pressupostos que dialogam com diferentes áreas do conhecimento, procurando expor as preocupações da teoria sociocognitiva, que, certamente, consolida-se cada vez mais como um dos marcos paradigmático no interior dos estudos lingüísticos.
1. INTRODUÇÃO
Conforme visto anteriormente, a abordagem cognitivista se encontra em ampla expansão dentro do campo da Lingüística e seus fundamentos são extremamente vastos, visto que a cognição é um estudo que acabou por incorporar autores das mais variadas origens teóricas e campos de atuação. Certamente, ainda há um leque de possibilidades dentro dessa área, que pode tomar rumos ainda inimagináveis. Entretanto, existem alguns fundamentos já consolidados pela abordagem e que consistem de grande relevância para a análise dos fenômenos lingüísticos.
A abordagem cognitiva partiu da investigação de pesquisadores que, procurando estudar o raciocínio lógico, mostraram ser possível cientificamente o estudo dos processos inteligentes. Desde os antigos filósofos, a lógica e o modo racional de se pensar foram temas freqüentes de estudos, fazendo parte da doutrina de inúmeras pesquisas. A partir do início do século XX, os cognitivistas passam a oferecer um embasamento científico para tais estudos. Com o advento desse campo científico, algumas perguntas se fizeram presentes e até hoje motivam debates e controvérsias: como a mente funciona? Existem módulos mentais para determinadas funções, ou a mente trabalha em bloco, como uma unidade? Temos conceitos inatos de linguagem? Aprendemos com a experiência? Essas e outras questões giram em torno do tema aqui proposto.
Tradicionalmente, e de forma bastante objetiva, é possível se dizer que existem dois caminhos distintos para abordar a linguagem: um que prioriza o contexto extralingüístico (sociedade, cultura, história, ideologia, etc.), e outro que prioriza aspectos internos relativos aos processos mentais. O grande desafio dos cognitivistas atuais é exatamente mostrar que a mente e o contexto, interpretado também através do corpo, trazem o conceito de linguagem de uma forma unívoca.
Para que possamos melhor compreender essas duas perspectivas, será descrita, primeiramente, uma visão da abordagem clássica do cognitivismo. Em seguida, alguns conceitos que permitem compreender a articulação entre mente e corpo na construção da linguagem.
2. A COGNIÇÃO CLÁSSICA
A teoria cognitiva clássica se alicerça na compreensão de que a mente humana está organizada de maneira modular, separando, de um lado, os processos individuais, mentais, e, de outro, os processos sociais, os fenômenos relacionados às experiências externas, que ocorrem em nossa volta. Essa compreensão encontra respaldo nas idéias defendidas pelo filósofo RENÉ DESCARTES, no século XVII, e é criticada atualmente por alguns autores, principalmente por sustentar que a mente, embora ligada ao corpo, não tem relação perceptiva nenhuma com ele; as percepções do corpo seriam “desconsideráveis” pela mente.
Inicialmente, os estudos cognitivos tiveram como alvo o estudo das formas inteligentes de pensar e de agir, advindo, daí, a busca pela criação de uma inteligência artificial. Pode-se associar, ainda, a criação do computador com os estudos cognitivos datados de 1940, que, naquela época, receberam a denominação de “estudos cibernéticos”. Foram criadas diversas máquinas que tinham por objetivo traduzir da forma mais fiel possível a mente humana. Esses estudos foram levados em conta por diversas áreas, e na lingüística não foi diferente. Conforme MUSSALIN E BENTES (2003), a idéia de estudar os processos mentais sem levar em conta aspectos da exterioridade social foi, e ainda é, fator determinante nesse viés da Lingüística Cognitiva.
Através da reprodução da inteligência artificial, os pesquisadores buscavam a compreensão de como isso acontece no ser humano. Mas foi justamente aí que o projeto fracassou, pois a reprodução de comportamentos inteligentes não traduzia o modo como isso acontece no ser humano. Tomando o exemplo do enxadrista russo Kasparov; sabemos que ele jogou xadrez contra um computador capaz de calcular um sem número de jogadas para poder vencer seu adversário. Ou seja, o raciocínio do computador se dá através de cálculos matemáticos e decisivos, que se baseiam numa pré-absorção do compreendimento de símbolos. Não existe aí nenhum raciocínio parecido com o do humano, pelo contrário, o que existe é uma leitura matemática das possibilidades de se jogar da melhor forma possível. E não parece ser assim que funciona a mente humana. A mente humana, diante da necessidade de tomadas de decisão, não está a todo o momento pensando em termos de representações da realidade organizadas por uma ordem lógica, matemática.
Os cognitivistas clássicos afirmam ainda que a mente está dividida por módulos, e que cada módulo é responsável por uma determinada função.
Ao que parece, o tratamento que a abordagem clássica dá à cognição humana, separando, de um lado, os processos tidos como exclusivamente mentais, e, de outro, questões consideradas puramente “externas” (tais como corpo, contexto, sociedade, etc.), acaba suscitando mais problemas que soluções para as questões relacionadas ao processamento e a compreensão de linguagem. A abordagem sociocognitiva procura romper com essa forma estanque de se trabalhar com o tema.
3. O SOCIOCOGNITIVISMO
Diferente da abordagem cognitiva clássica, que busca compreender os processos da mente de forma separada do que acontece fora dela, o sociocognitivismo afirma que, para que se possam entender os processos a partir dos quais a mente se torna participativa na produção e na compreensão dos fenômenos de linguagem, faz-se necessário analisar o ambiente em que se vive e toda base cultural resultante das experiências vivenciadas no decorrer da vida dos indivíduos.
Segundo CLARK (1992), os conhecimentos adquiridos por cada indivíduo partem de três fontes: (i) da comunidade da qual as pessoas fazem parte, (ii) de “versão pública do mundo”, também relacionada à determinada comunidade, (iii) da cultura e da experiência compartilhada pelos membros da referida comunidade. Para o mesmo CLARK (1996), a língua é um tipo de “ação conjunta” de onde pode se depreender todos os aspectos contextuais, sócio-culturais, etc. Para exemplificar esse trabalho conjunto, o autor cita a tarefa de dois pianistas executando um dueto. As ações são realizadas de acordo com os conhecimentos prévios de ambos, o que resulta em uma unidade no som. O mesmo ocorre quando existe uma partida de futebol, por exemplo. Neste jogo, existe uma ação conjunta que busca uma finalidade em comum, no caso, a vitória. Em alguns casos, essa finalidade pode não se apresentar de uma forma muito clara, como em um bate-papo entre dois amigos, por exemplo. Mas mesmo nesses casos também existe uma intenção que é detectada conjuntamente, como, por exemplo, a de se divertir, de se jogar conversa “para o ar”, etc.
As ações conjuntas acima citadas são o resultado de diversas ações conjuntas mais simples, que resultam na ação principal. Sendo assim, pode-se concluir que tais atividades intersubjetivas, por levarem em conta aspectos relativos à exterioridade cultural, tornam-se também ação social. Conseqüentemente, podemos compreender o fato de que existe, em uma ação conjunta no interior da cultura onde se vive, uma forte interação entre mente e corpo. As “interpretações do mundo” vêm até o cérebro através de nossas experiências e, sobretudo, a parir das experiências detectadas pelo corpo. Portanto, as interações com o meio são limitadas fisicamente. Retomando o conceito de Clark de que a língua é um tipo de ação conjunta, chega-se também à conclusão de que, para essa ação ser conjunta, é necessário que exista um objetivo específico. Jamais se chega à realização de uma partida de futebol, como no exemplo já mencionado, sem a linguagem. O consenso com o horário e com as regras do jogo, por exemplo, resulta de conceitos pré-estabelecidos e consensualizados por determinada comunidade. Por isso, vale salientar novamente a visão de Clark em relação às diferentes concepções que as comunidades constroem a respeito de tal assunto, relacionadas a determinadas culturas.
Outro ponto importante dentro do estudo sociocognitivo é o tratamento que é dado ao discurso e à materialidade textual da linguagem. A construção do sentido do texto traz aspectos cognitivos que mostram o conhecimento de mundo da pessoa que cria esse texto. Embora este trabalho não tenha como prioridade o tratamento de questões relacionadas à produção/compreensão textual, sabe-se que esse é um campo que envolve diversas áreas, tanto da Psicologia Cognitiva como da Lingüística Textual.
Concluindo, a sociocognição visa mostrar um modelo cognitivo que se baseia no conceito de que a compreensão se deve através da interação homem-sociedade, levando-se em conta, dentre outros, aspectos individuais, cognitivos e socioculturais.
4. A LINGUAGEM E A METÁFORA
Diferentemente do que é proposto por inúmeros autores e lingüistas, LAKOFF e JOHNSON (1979) apresentam uma visão muito particular acerca das construções metafóricas, gerando polêmicas inclusive no interior dos estudos cognitivos. A metáfora vem sendo costumeiramente traduzida em nossas conversas como “algo” que representa “outro algo” de uma forma figurada, como no exemplo “estou cheio”. Essa metáfora, que se acredita seja compreendida por todos, tem a intenção de traduzir o fato de que a pessoa que disse essa frase esteja “bem alimentada”, “cansada” e, dependendo do contexto, até mesmo muito “atarefada”. O fato de fazermos essa leitura da metáfora mostra exatamente que ela ultrapassa o campo da estrutura, ou seja, ela não está ali somente para caracterizar um sentido “figurado” da frase, mas também para explicitar que a mente associa o mundo que vivemos com a forma de demonstrarmos isso, tanto no pensamento como na fala. E é exatamente partindo desse pressuposto que Lakoff e Johnson alicerçam sua obra. Os conceitos que temos armazenados na mente não se baseiam somente na questão cognitivo-mental, mas mostram clara associação com as questões já apresentadas neste trabalho: o meio em que vivemos, a cultura adquirida, a forma subjetiva e individual de cada ser humano, etc.
Esses conceitos mostram que a linguagem humana traduz as experiências que vivenciamos no decorrer de nossas vidas. Pensando dessa forma, torna-se improdutivo trabalhar com a dicotomia proposta por SAUSSURE (1916), a fala é individual e subjetiva e a língua seria um instrumento social uniforme. Porém, esse mesmo ser que profere a fala individual profere a língua também, não se tratando de dois seres distintos e nem parece ser o caso de atitudes “cognitivas” diferenciadas para cada caso. Resumindo, para Lakoff e Johnson, a metáfora seria necessária para a compreensão humana.
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1. Vale ressaltar que a obra de Saussure se tratou de uma obra póstuma, idealizada por seus alunos, o que vem a mostrar uma visão tomada por “sua” na obra.
Lakoff e Johnson falam também sobre o sistema conceptual. Esse sistema seria definitivo para a forma como absorvemos e compreendemos o mundo ao nosso redor. Para os autores, trata-se de um sistema que “estrutura o que percebemos, a maneira como nos comportamos no mundo e o modo como nos relacionamos com outras pessoas”. De acordo com esse raciocínio, pode-se concluir que a linguagem humana ultrapassa o campo da estrutura e da semântica para ser, também, uma forma de ação. Na frase “Não consigo ganhar em uma discussão com Paulo.” O ato (ação) de ganhar vem a traduzir na linguagem que Paulo sempre se sobressai em uma diferenciação de idéias com a referida pessoa. A partir daí, chega-se a um dos pontos defendidos por Lakoff e Johnson de que a metáfora não se baseia em conceitos aleatórios para traduzir linguagem e mundo, mas sim em conceitos cognitivamente organizados. Dessa forma, ficou caracterizado dentro do exemplo dado, o conceito de que DISCUSSÃO É GUERRA. Vejamos outros exemplos: “Ele derrubou todos meus argumentos”, “Não encontrei defesa para sua tese”, etc. Assim sendo, para Lakoff e Johnson, o sistema conceptual do ser humano elabora conceitos “abstratos” a partir de conceitos “concretos”, mais diretamente relacionados à experiência “cotidiana” que vivenciamos.
Outro exemplo que podemos destacar seria no campo sentimental. Na frase “O amor é uma dor”, vemos o “amor”, sentimento, sendo conceitualizado a partir de uma experiência física, no caso a dor, algo que sentimos fisicamente. Pode-se, então, observar a mente e o corpo agindo juntos para que se consiga extrair o sentido dessa oração. A experienciação corpórea, bem como cultural e social, agem na mente de uma forma que fica perceptível através da linguagem explicitada.
Ainda destacando outros aspectos do estudo, percebemos também que a mente procura associar a linguagem com o mundo através de categorizações. Vejamos o exemplo “casa”. Da perspectiva estritamente gramatical, trata-se de um substantivo. Porém, quando considerado a partir dos seus diferentes efeitos de sentido, observamos, por exemplo, que a casa, para um pai de família, pode significar o lar, para um sem-teto que vive em um abrigo, pode significar um lugar onde se vive com outros companheiros financiados pela sociedade, para uma pessoa que vive em uma metrópole, pode significar segurança. Enfim, o que se pretende concluir desse exemplo é o fato de que a mente foi amplamente “influenciada” pela exterioridade sócio-histórico-cultural para elaborar uma categorização de determinada coisa, construindo um sentido da mesma. Embora se tratando do mesmo objeto, no caso a casa, as categorizações de cada pessoa para essa mesma referência têm “protótipos” diferentes, de acordo com aquilo que essa pessoa vivencia ou vivenciou no mundo.
POSFÁCIO
Os estudos cognitivos apresentados mostram o grande viés que a teoria vem tomando. Embora de uma forma bem resumida, penso ter deixado neste trabalho os principais aspectos de discordância entre a abordagem cognitivista clássica e a perspectiva sociocognitivista, além de reafirmar a idéia de que a mente e o corpo não podem ser vistos como dois pontos dissociados nas atividades de produção e compreensão de linguagem. O corpo vem a ser o nosso elo com o mundo, trazendo-nos até a mente a forma como interpretaremos esse mundo, dentro de nossas próprias limitações (físicas, cognitivas, dentre outras). Acredito que a separação de ambos não trará uma contribuição mais aprofundada no que diz respeito às diversas questões relacionadas à linguagem. Ficam então em aberto as perspectivas e a dimensão que esse estudo irá tomar, cabendo ao próprio homem dar o próximo passo.
Referências Bibliográficas
CLARK, H. Arenas of language use. Chicago: University of Chicago Press, 1992.
_______. Using language. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
LAKOFF, G., JOHSON, MARK. Metáforas da Vida Cotidiana. Tradução de Mara Sophia Zanotto. Campinas: Educ, 2002.
MUSSALIM, F. & BENTES, A. C. (orgs.). Introdução à lingüística 2: domínios e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2003.
SAUSSURE, F. de. Curso de Lingüística geral. 2. ed. Tradução: Antônio Chelini et al. São Paulo: Cultrix, 1970 (Título original, 1916).
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